Eu estava caminhando pela rua, a caminho do mercado, quando algo chamou minha atenção: um Fiat 147 em ótimo estado, a venda em uma loja de automóveis, exemplar de colecionador. Um carro antigo, carregado de história e presença visual.
Sem muito tempo fiz uma foto rápida, mesmo sabendo que aquela ainda não era a melhor imagem possível. Então pensei: “Na volta eu faço uma foto melhor.” E segui meu caminho.
Ao voltar do mercado, encontrei o carro — mas a cena era outra. Havia muitas pessoas ao redor: compradores, vendedores e curiosos. A composição que antes parecia simples e limpa havia desaparecido. O momento tinha passado.
A ilusão do “depois”
Existe uma frase muito comum, especialmente na infância: “Na volta a gente compra.”
É o tipo de promessa usada por pais e mães para adiar um desejo imediato dos filhos — geralmente sem intenção real de cumpri-la. A criança acredita, cria expectativa… mas o objeto desejado raramente chega.
Na fotografia, essa lógica também aparece. E, assim como na infância, ela costuma enganar.
E que tem o fotógrafo com isso?
Existe um entendimento quase universal entre fotógrafos:
- Você não se arrepende da foto que não viu
- Não se arrepende da foto que não pôde fazer
- Não se arrepende da foto que outro fotógrafo capturou
O arrependimento vem da foto que você deixou de fazer.
São exatamente aquelas fotos que, seja por descuido, desprezo ou desinteresse momentâneo, hoje fazem falta na minha mente, no meu arquivo e talvez no meu portfólio.
Vai, vai, vai! Fotografa logo!
Na fotografia as condições mudam rapidamente:
- A luz se transforma
- As pessoas seguem seus caminhos
- O gesto acontece e nunca mais se repete
- O carro estaciona na frente do objeto
- Um reflexo surge e some
Nada permanece igual. É como a música:
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
Tudo o que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
A cena que você vê agora é única.
Os erros que levam à lamentação
Deixar de fazer uma imagem por motivos simples:
- Achar que pode fazer melhor depois
- Estar com pressa
- Subestimar o momento
- Esperar condições ideais
- Acreditar na repetição, ou perpetuação, das condições da cena
Mas o problema é que o “depois” raramente se repete. E se houver a repetição, o inédito já não existe mais, bem como a intensidade das características é diferente.
A solução
Se existe um conselho que vale levar para qualquer saída fotográfica, é este:
Viu a cena? Fotografe.
É possível apagar uma imagem feita, mas é impossível recriar uma que já não existe mais.
Por isso não espere. Não adie. Não confie na volta.
O instante não espera.
A cena não se repete.
E a oportunidade não volta.
Na fotografia, ou você faz agora… ou não faz mais.