Fui ao D-EDGE por dois motivos, e confesso que nenhum deles era exatamente profissional. O primeiro era pura curiosidade: eu já tinha conhecido a Ministry of Sound, uma casa lendária, e queria saber como o D-EDGE — do qual eu via tanta propaganda — se comparava. O segundo era o Echo, evento assinado pela Pioneer DJ e pela Alpha Theta, reunindo Fatsync, Guto Loureiro, Nino Leal, Zullu e Dennis DJ, além do produtor Felipe Senne. A proposta do evento era simples: apresentar ao público apaixonado por equipamentos de DJ, os toca-discos, CDJs e controladoras mais novos no mercado.
Eu já não sou mais DJ. Parei de tocar em 1998. Mas as batidas eletrônicas da house continuam me fazendo dançar, e o mundo dos DJs nunca deixou de me interessar. Fui para lá para me atualizar: ver de perto como a cena mudou desde que os toca-discos saíram de cena e entraram as controladoras, os CDJs, o streaming, os componentes eletrônicos e a programação que hoje fazem parte do dia a dia de quem toca.
O que eu não esperava era sair de lá com muito mais do que isso. Saí como se tivesse tido um intensivo para carreira, fora aulas sobre estudar, empreender e se expor.
Estudar traz diferenciação
Em determinado momento, os DJs foram reunidos numa mesa de debate, e uma pergunta dividiu opiniões: produção musical é obrigatória para um DJ, ou é apenas um diferencial? Parte dos artistas presentes não via isso como obrigação nem como diferencial de peso. Já Felipe Senne — produtor e ex-DJ — discordou. Para ele, quem quer se destacar no mercado precisa ir além de tocar e mixar: produzir é o que permite escalar na profissão.
Fatsync confirmou essa visão com a própria trajetória. Contou que, quando começou a estudar produção, encontrou um caminho novo, com uma perspectiva diferente para suas festas e apresentações. Resumiu numa frase: nunca estamos completos, estamos sempre aprendendo — a mixar, a gerenciar, a produzir. Quem quer ir mais longe, precisa aprender.

Dennis DJ e empreendedor: de “quem não tinha nada para levar” a dono da própria casa
O momento que mais me impressionou foi a entrevista com Dennis DJ. Ele começou como a maioria: um grupo de amigos em que cada um trazia uma parte do equipamento — um o toca-disco, outro o mixer, outro as caixas, outro os vinis. Dennis não tinha nada para trazer. Tinha só vontade de aprender. Foi assim que entrou nas mixagens e, depois, na produção de funk, trabalhando ao lado de MCs até fechar contrato com a Furacão 2000 — a equipe que por muito tempo dominou as rádios com programas próprios divulgando seus produtos.
Mas logo cedo encontrou um problema estrutural: o modelo de negócio da Furacão fazia dela a dona das composições que Dennis produzia. Ele fez sucesso, ganhou reconhecimento dentro do meio, mas via a produtora crescer financeiramente enquanto ele não acompanhava esse desenvolvimento.
Mesmo como funcionário, ainda sem grandes ganhos ou produções próprias, Dennis já se espelhava em DJs de fora, assistindo a shows e DVDs de nomes como Tiesto, estudando o que fazia aquelas produções gerarem emoção, alegria, impacto visual em quem estava na pista. Ele fazia, sem chamar assim, um benchmarking — e isso é raro num meio em que, segundo ele mesmo reconheceu, o DJ costuma ser um apaixonado por música, ama ver a pista cheia, mas esquece que as contas também precisam ser pagas.
Cansado do modelo, saiu da Furacão e passou a trabalhar por conta própria: voltou ao estúdio, produziu novos MCs e funks, tocou como DJ em suas próprias festas. Até que alugou um clube na zona sul do Rio e investiu cerca de R$ 100 mil para lançar seu próprio evento. Saiu no prejuízo — mil reais negativos na conta. Mas saiu também com algo mais valioso: um portfólio pronto, um produto que podia mostrar e vender para quem quisesse contratar a próxima festa. A produção daquela noite virou o ponto de partida de tudo o que veio depois.

A exposição nos dois palcos
Felipe Senne, produtor e empresário de DJs, contou o que ele busca num artista antes de investir e gerenciar sua carreira: a performance em dois palcos. O primeiro é o palco de cabine — o desempenho musical em si, como o DJ conduz a noite, suas referências, se tem um estilo definido. O segundo é o palco das redes sociais: a presença digital, e se ela é coerente com quem o artista realmente é na noite.
Senne foi direto: vivemos numa sociedade do espetáculo — a referência a Guy Debord veio à tona naturalmente — e quem usa bem essa segunda vitrine tem vantagem. Não porque finge ser algo que não é, mas porque expõe processo, mostra bastidor, alimenta a curiosidade de quem segue.
E aí veio a frase que doeu um pouco: “Não basta ser bom. As pessoas precisam saber que você é bom.” Porque, se você é o melhor no seu ofício, mas ninguém sabe, como irão te contratar?
Essa frase me atingiu de um jeito pessoal. Eu sou designer, fotógrafo, construo sites — mas divulgo muito pouco do que produzo nas redes. Nem sempre tenho o estalo de parar, formalizar as ideias e transformar o trabalho em conteúdo. Mas percebi, ali, algo simples que eu andava esquecendo: uma foto pequena é conteúdo. Um stories é conteúdo. E é por meio desse conteúdo — por menor que pareça — que a gente consegue de fato se comunicar com quem nos segue.
O que fui ver versus o que vi
Entrei naquela noite para conhecer equipamentos, perceber a acústica da casa, avaliar a iluminação, comparar tudo aquilo que eu só tinha visto em fotos e vídeos com a experiência real. Saí de lá com outra coisa: um direcionamento profissional que, se tivesse chegado até mim aos 22 ou 23 anos — quando eu ainda tocava —, talvez tivesse mudado o rumo da minha própria carreira como DJ.
O Echo foi vendido como uma vitrine de equipamentos. Para mim, agora, como alguém que trabalha com comunicação, virou um seminário de empreendedorismo, aprendizado contínuo e marketing pessoal. E saí de lá com um turning point: prestar mais atenção — e dar mais valor — ao empreendimento, ao estudo e à forma como comunico o que faço.