Estudar, empreender e comunicar: três lições para quem quer crescer profissionalmente

Há alguns dias participei do Pioneer ECHO, evento voltado à apresentação de equipamentos e novidades da Pioneer DJ e da AlphaTheta para DJs. Para mim, porém, a experiência foi além dos equipamentos. Talvez por também ter sido DJ e ter acompanhado uma época muito diferente, observei aquele ambiente fazendo comparações. Mudaram os equipamentos, o acesso à música, o mercado e, principalmente, a maneira como uma carreira pode ser construída.

Entre apresentações, conversas e palestras de profissionais como Nino Leal, Guto Loureiro, Zullu, Fat Sync, Dennis DJ e Felipe Senne, três ideias ficaram comigo. Elas não servem apenas para DJs, mas para praticamente qualquer pessoa interessada em crescer profissionalmente: estudar, empreender e se comunicar.

Quando mixar também era um exercício físico

Comecei a tocar em uma época em que alguns toca-discos nem sequer tinham controle de pitch. Se duas músicas apresentassem pequenas diferenças de velocidade, uma das soluções era usar os dedos: pressionávamos levemente o prato para diminuir a rotação ou impulsionávamos o disco para acelerá-lo. Outra estratégia era escolher faixas com BPMs próximos, pois, quanto menor a diferença, mais fácil seria a mixagem. Assim fui descobrindo aquele universo fascinante.

Para uma festa que começasse às dez da noite e terminasse às seis da manhã, eu podia carregar duas caixas enormes com cerca de 200 discos. Além do peso físico, havia o financeiro. Um vinil importado americano custava aproximadamente US$ 15, enquanto um europeu custava cerca de US$ 18. Era preciso frequentar lojas especializadas, acompanhar as importações e investir continuamente para manter o repertório atualizado.

Hoje, um pendrive pode carregar uma quantidade de músicas que, naquela época, exigiria várias caixas. Um laptop permite acessar uma biblioteca inteira, faixas podem ser compradas online por poucos dólares e serviços digitais oferecem catálogos imensos. A tecnologia derrubou muitas barreiras, mas construir uma carreira continua longe de ser simples. Ouvindo alguns dos profissionais presentes no Pioneer ECHO, fiquei com a impressão de que outras exigências ganharam ainda mais importância.

Estudar: aprender aquilo que ainda não sabemos

Em uma das conversas, Fat Sync apresentou uma perspectiva que chamou minha atenção. Enquanto outros DJs enfatizavam performance e controle da pista — competências obviamente fundamentais —, ele destacou outro diferencial em sua trajetória: aprender produção musical. A palavra importante aqui é justamente aprender.

Segundo seu relato, esse conhecimento não foi apenas mais uma habilidade no currículo. Aprender a produzir modificou seus sets, suas apresentações e sua evolução profissional. Felipe Senne, empresário e produtor ligado à carreira de DJs, também destacou a produção musical como diferencial para quem procura se destacar nesse mercado.

Isso vale muito além da música. Chega um momento em qualquer carreira em que aquilo que nos trouxe até determinado patamar já não é suficiente para nos levar ao próximo. É preciso continuar estudando, fazer cursos, conhecer novas ferramentas, acompanhar as transformações da profissão e aprender com profissionais sérios e idôneos, especialmente aqueles que demonstram na prática os resultados do que ensinam.

Experiência é valiosa, mas não deveria justificar a interrupção do aprendizado. Talvez seja justamente o contrário: quanto mais avançamos, mais precisamos reconhecer aquilo que ainda não sabemos.

Empreender: sua profissão também precisa de estratégia

Outro momento marcante foi ouvir Dennis DJ contar sua trajetória. Em determinado período, suas músicas já alcançavam reconhecimento. Entretanto, segundo relatou, o modelo de negócio em que estava inserido não lhe proporcionava o retorno financeiro nem o controle sobre sua produção que desejava. Por isso, decidiu mudar.

Voltou a trabalhar com novos MCs, produzir músicas e realizar eventos menores, mas também passou a observar profissionais em outro patamar. Estudou apresentações de DJs internacionais, como Tiësto, comprava DVDs e analisava não apenas a música, mas o espetáculo: palco, produção, efeitos, participações e experiência entregue ao público. Queria compreender o negócio.

Dessa observação surgiu a construção do Baile do Dennis como produto, até que decidiu investir na realização de um evento próprio. Segundo contou, o aluguel do espaço chegou a R$ 100 mil. Depois de todo o investimento e da realização, o resultado financeiro ficou cerca de R$ 1 mil negativo.

Seria fácil olhar para a planilha e concluir: prejuízo. Mas havia outro ativo naquela conta. Dennis agora possuía um evento realizado, um produto, uma experiência e um portfólio que poderiam ser apresentados a contratantes e levados para outros lugares.

Isso não significa que assumir grandes riscos financeiros seja uma fórmula a ser copiada. Definitivamente não é. A lição está em outra parte: em algum momento, Dennis deixou de pensar somente como o DJ que precisava ser contratado e passou a pensar também como alguém que tinha um produto para oferecer ao mercado.

Esse olhar empresarial é cada vez mais importante em qualquer profissão. Não basta dominar tecnicamente o que fazemos. É necessário compreender preço, custos, investimento, posicionamento, mercado, negociação, direitos, oportunidades e objetivos. Isso vale para o empresário, o profissional autônomo e até quem trabalha com carteira assinada.

Empreender, nesse sentido, não significa necessariamente abrir uma empresa. Significa participar ativamente da construção da própria carreira.

Comunicar: ninguém contrata aquilo que não conhece

A terceira reflexão talvez seja a mais desconfortável para muitos bons profissionais. Felipe Senne levantou uma questão simples: de pouco adianta alguém ser excelente se ninguém sabe que essa pessoa existe.

Podemos estudar durante anos, dominar profundamente nosso ofício e entregar um trabalho excepcional. Mas há uma etapa adicional: é preciso comunicar isso. Exposição profissional não significa transformar a própria vida em um reality show, publicar qualquer coisa para alimentar algoritmos ou buscar atenção a qualquer preço. Significa construir uma presença coerente com a carreira que desejamos.

Hoje temos ferramentas que gerações anteriores não possuíam. Redes sociais, sites, blogs, vídeos, anúncios, portfólios digitais e mecanismos de busca permitem apresentar o trabalho diretamente a quem pode precisar dele. Quando essa comunicação é bem construída, o potencial cliente consegue descobrir o que fazemos, compreender como trabalhamos, conhecer nossos resultados e identificar características da nossa personalidade profissional antes do primeiro contato. Isso reduz a distância entre quem oferece uma solução e quem procura por ela.

Marketing, nesse contexto, não precisa ser entendido apenas como “vender”. É também tornar compreensível aquilo que temos para oferecer.

O equipamento mudou. A carreira também.

Foi curioso voltar a um ambiente de DJs tantos anos depois. Saí de uma época em que carregávamos centenas de discos e encontrei profissionais trabalhando com pendrives, computadores, softwares, equipamentos digitais e possibilidades difíceis de imaginar quando comecei. Mas talvez a transformação mais interessante não esteja sobre a bancada do DJ. Está na maneira de pensar a profissão.

A tecnologia tornou muitas ferramentas mais acessíveis. Ao mesmo tempo, um mercado competitivo exige profissionais capazes de enxergar além da execução técnica. Por isso, entre as muitas coisas que vi e ouvi no Pioneer ECHO, fiquei com três verbos: Estudar. Empreender. Comunicar.

Estudar para não ficar limitado ao que já sabemos; empreender para transformar conhecimento e competência em uma carreira construída com estratégia; e comunicar para permitir que as pessoas certas descubram aquilo que somos capazes de fazer.

Não importa se estamos falando de um DJ, fotógrafo, designer, advogado, médico, desenvolvedor, funcionário de uma empresa ou dono do próprio negócio. Quem pretende avançar profissionalmente precisa continuar aprendendo, compreender a carreira que está construindo e usar as ferramentas disponíveis para tornar seu trabalho conhecido.

Porque ser bom continua sendo fundamental. Mas, no mundo profissional de hoje, ser bom e permanecer desconhecido são duas coisas que dificilmente combinam com crescimento.